segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Liberdade Cristã Segundo Lutero

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- Principais textos de Lutero sobre o tema da Liberdade Cristã.

  • Manifesto à nobreza cristã da nação alemã (1520), que escreveu contra a hierarquia romana;
  • Prelúdio acerca do cativeiro babilônico da Igreja (1520), contra o sistema sacramental de Roma (Batismo, Penitência, Confirmação, Matrimônio, A Ordem e a Extrema-Unção);
  • Tratado acerca da liberdade cristã (1520), em que Lutero pretendeu afirmar tudo quanto ao assunto da fé, do amor e da liberdade cristã.

- Qual era a sua proposta?

A proposta de Lutero não é tão simples quanto parece.

Como alguém pode ser livre de tudo e não estar sujeito a ninguém, mas ao mesmo tempo servo de todos?

Outros temas podem ser abordados aqui que resumem essa dialética que parece ser uma controvérsia.

Dentro do tema “Justificação pela Fé”, podemos encontrar a resposta em relação à liberdade cristã. Uma vez que somos justificados perante Deus mediante Cristo Jesus, não precisamos das obras para nossa Salvação.

Lutero expõe isso claramente no tratado da liberdade cristã. Ele escreve:

Pois a palavra de Deus não pode ser recebida e cultivada por nenhuma obra humana, senão somente pela fé. Por isso claro está que assim como a alma necessita tão somente da Palavra para a vida e a justiça, do mesmo modo ela é justificada somente pela fé, e por nenhuma obra. Pois se pudesse ser justificada por qualquer outra coisa, ela não necessitaria da Palavra e, conseqüentemente, também não da fé. (OS 2, 435-460)

A palavra oferece ao ser humano Cristo, o Salvador, que nos justifica independente de nossas obras. Fazendo citações de Rm 3.23 e Rm 3.10 ss, ainda comenta:

Uma vez reconhecido isso, saberás que tens necessidade de Cristo, que por ti sofreu e ressuscitou, para que, crendo nele, te tornes outra pessoa por meio desta fé, recendo perdão de todos os teus pecados e sendo justificado por méritos alheios, a saber, somente pelos méritos de Cristo. (OS 2, 435-460)

Em relação à justificação ainda comenta:

Por isso, claro está que assim como a alma necessita tão-somente da Palavra para a vida e a justiça, do mesmo modo ela é justificada somente pela fé, e por nenhuma obra. (OS 2, 435-460)

A primeira pergunta já está respondida por Lutero, entretanto isso não quer dizer que não precisamos fazer nada. Inclusive era o pensamento de algumas pessoas da época de Lutero e também de alguns amigos. Vejamos então a resposta para a segunda pergunta.

- Como alguém pode ser livre e servo?

Nesse ponto, pode ser abordado o tema das “Boas Obras”. Contudo, essa também não é uma questão fácil de responder. Melanchton, amigo de Lutero, expõe isso de maneira clara na obra “Justificação pela Fé”. Ele escreve:

“Essa fé é atribuída como justiça diante de Deus, Rm 4.3-5.” E quando o coração é erigido e vivificado dessa maneira pela fé, recebe o Espírito Santo, que nos renova de modo que possamos cumprir a lei, amar a Deus e sua palavra, obedecer a Deus em aflições, ser castos, amar o próximo, etc. Ainda que estas obras por ora distem muito da perfeição da lei, agradam, contudo, em razão da fé, pela qual somos reputados justos, em virtude de crermos que temos um Deus reconciliado por causa de Cristo. (Justificação pela Fé, 35)

Lutero entra no assunto da lei dizendo que lhe é impossível ao ser humano cumpri-la e seu fundamento está em Oséias 13.9: “És tua própria perdição, Israel, e teu auxílio está só em mim.” A pessoa que do contrário busca salvação por meio da lei, não encontra em sim mesma aquilo pelo qual possa ser justificada e salva. Porque Deus Pai depositou tudo na fé, para que quem tem a esta, tenha tudo; quem não a tem; não tenha nada. Assim, as promessas de Deus dão de presente o que os preceitos exigem, e cumprem o que a lei ordena, para que tudo seja exclusivamente de Deus, tanto os preceitos quanto o seu cumprimento. E Melanchton ainda escreve:

Não cumprimos nem podemos cumprir a lei antes de reconciliados com Deus, justificados e renascidos. Nem agradaria a Deus esse cumprimento da lei a menos que fôssemos aceitáveis em virtude da fé. E visto serem os homens aceitáveis em razão da fé, por isso mesmo agrada o cumprimento da lei, e tem galardão nesta vida e depois dela. (Justificação pela Fé, 42)

Escreve também:

Depois de justificados e renascidos pela fé, principiamos a temer e amar a Deus, a rogar e dele esperar auxílio, a reder-lhe graças e louvor, e a obedecer-lhe nas aflições. Começamos também a amar o próximo, por ter no coração movimentos espirituais e santos. (Justificação pela Fé, 44)

Esta é a liberdade cristã, nossa fé, que não faz que sejamos ociosos ou vivamos mal, mas que ninguém necessite da lei ou de obras para a justiça e salvação.

As obras devem brotar da cruz, de um coração que está em Cristo. Fora de Cristo não há boa obra. C. F. W. Walter faz uma boa ilustração do que é uma boa obra utilizando do texto de Zaqueu.

Zaqueu diz: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade de meus bens; e, se nalguma cousa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais”. O Senhor não exigiu que ele fizesse isso. Sua própria consciência, primeiramente despertada, mas agora já tranqüilizada, exigia que ele praticasse esse grande ato de generosidade para com os pobres. (Lei e Evangelho, 43)

Ou seja, é a ação de Deus em nossa vida. Por isso o cristão deve ser servo de todos. Em gratidão ao amor de Deus. É sempre Deus que vem primeiro. Também podemos ver isso com o salmista quando diz : “unges-me a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda”. É como se ele dissesse: Senhor molda-me primeiro, para que eu possa te servir.

- O que afirmar?

A Fórmula de Concórdia é um conjunto de artigos que afirmam a verdadeira doutrina bíblica. Foram escritos entre 1530 a 1575 na tentativa de acabar com as controvérsias doutrinárias. Infelizmente algumas controvérsias perduram até hoje.

Uma dessas controvérsias, diz respeito às Boas Obras que encontramos no capítulo IV da Fórmula de Concórdia.

Gostaria de ressaltar aqui uma das afirmações que encontramos na Apologia da Fórmula de Concórdia:

Também cremos, ensinamos e confessamos que não as obras, mas apenas o Espírito de Deus, por intermédio da fé, preserva a fé e a salvação em nós. As boas obras são testemunho da presença e habitação do Espírito Santo. (Cremos por isso também falamos, 64)

- Conclusão

Diante da pesquisa realizada, percebi a ligação do tema liberdade cristã com vários outros, como por exemplo: fé, obras, justificação e santificação.

Todos os temas estão interligados. Talvez possa até afirmar que o tema liberdade cristã pode ser encontrado “camuflado” na maioria dos escritos de Lutero.

Em seu “Tratado sobre A Liberdade Cristã”, Lutero conclui que a pessoa cristã não vive em si mesma, mas em Cristo e em seu próximo, ou então não é cristã. Pela fé em Cristo não somos livres das obras, mas do falso conceito das obras, isso é, da presunção de uma justificação conseguida pelas obras.

Por isso, faz-se necessário diferenciar justificação por obras e justificação pela fé para poder entender qual é a liberdade do cristão, sendo que justificado pela fé em Cristo é capacitado diariamente a fazer boas obras.

Devido às afirmações, a Igreja pode se posicionar e confessar como consta no 4º artigo da Fórmula de Concórdia:

Também cremos, ensinamos e confessamos que não as obras, mas apenas o Espírito de Deus, por intermédio da fé, preserva a fé e a salvação em nós. As boas obras são testemunho da presença e habitação do Espírito Santo. (Cremos por isso também falamos, 64)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bíblia Traduzida, ARA.

A Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão. OS 2, 277-340.

Prelúdio Acerca do Cativeiro Babilônico da Igreja. OS 2, 341-424.

Tratado de Martinho Lutero sobre a liberdade cristã. OS 2, 435-460.

WARTH, Martin C. A Justificação pela Fé. Porto Alegre, Concórdia,1983.

LIENHARD, Marc. Martim Lutero - Tempo, Vida e Mensagem. São Leopoldo, Sinodal, 1998.

GOERL, Otto A. Cremos, por isso também falamos – Fórmula de Concórdia. Porto Alegre, Concórdia, 1977.

Seibert, Erní W. Introdução às Confissões Luteranas – Sua atualidade e relevância. Porto Alegre, Concórdia, 2000.

Walter, C. F. W. Lei e Evangelho. Porto Alegre, Concórdia, 2ª edição 1998.

Livro de Concórdia – As Confissões da Igreja Evangélica Luterana do Brasil.

2 comentários:

Justino Amorim da Silva disse...

A Liberdade implica em nos colocar em função do outro, não é no sentido de submissão, mais em viver em harmonia um ajudando o outro, não há como vivermos isolados sem a ajuda e sem contribuir uns para com os outros, isso não significa necessariamente viver no mesmo espaço. Esta Liberdade nos chama a olhar o sofrimento do irmão e fazer algo por ele. Se houver sofrimento não há liberdade. As boas obras nos conduzirá a tal liberdade.

Anônimo disse...

No filme,Lutero, qual a proposta que Lutero faz para Ulrick antes que o mesmo parta para a Holanda?